Regime angolano em estado de alerta: “O Ocidente está farto de nós”

Regime angolano em estado de alerta: “O Ocidente está farto de nós”

Casos de corrupção, diabolização do líder da oposição e desunião no partido governante enfraquecem as expectativas de democratização que alguns depositaram no Presidente João Lourenço

“O MPLA está preparado para ter Adalberto da Costa Júnior como Presidente de Angola?” A pergunta, disparada à queima-roupa pelo embaixador de um país da União Europeia (UE) em recente audiência, apanhou de surpresa Paulo Pombolo, secretário-geral do Movimento Popular pela Libertação de Angola, que governa o país desde a independência. Também deixou em estado de alerta a sua liderança.

O recado sinaliza, de forma acintosa, o sentimento de saturação que parece ter-se apoderado do Ocidente ante um longo ciclo de governação que continua a manter Angola refém da corrupção, como atesta o escândalo de desvio de mais de dez milhões de dólares (8,2 milhões e euros), protagonizada por altas patentes de um dos centros nevrálgicos do seu próprio poder: a Casa Militar do Presidente.

“O Ocidente está farto de nós”, confessou ao Expresso um alto dirigente do MPLA. Este sentimento e a ausência de investimentos, mesmo depois de Lourenço ter feito uma abertura sem precedentes, parecem surgir associados à má governação, à pesada burocracia de instituições muito frágeis e às reiteradas práticas de corrupção, que tendem a afastar os investidores.

Luanda piscou o olho a Madrid para novos apoios em vésperas de eleições e o primeiro-ministro espanhol esteve recentemente em Luanda, mas Pedro Sánchez preferiu consultar Lisboa antes de tomar uma decisão. “Há um desgaste muito grande da governação angolana e, sendo Portugal a sua porta de entrada na Europa e conhecedor como ninguém da sua realidade, os espanhóis preferem jogar no seguro”, esclarece fonte da UE.

O Vizinho Sul-Africano

Quem se apresta a tirar partido deste desgaste é a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). Aproveitando-se do crescendo da popularidade interna do seu líder, Costa Júnior, e do distanciamento entre Luanda e Pretória, o maior partido da posição parece preparar-se para articular uma aliança sólida com a África do Sul em caso de vitória eleitoral.

“Não morrendo de amores pelos sul-africanos, por causa da sua aproximação a Savimbi no passado, aqueles podem no futuro avançar com um pacote de apoio financeiro e empresarial em socorro de um novo Governo que lhes abra as portas do mercado angolano como nunca antes”, revelou ao Expresso fonte sul-africana.

Desvio de Milhões

Para o crescente agastamento do Ocidente quanto à governação angolana contribui mais um escândalo de desvio de fundos, que, tendo ramificações em Portugal e na Namíbia, atinge de novo a Presidência da República e envolve a participação de altos funcionários de um banco comercial. O caos, mais ou menos previsível, constitui um soco no estômago da débil credibilidade do regime e põe em causa a liderança política e moral de Lourenço no combate a corrupção.

“O antigo Presidente [José Eduardo dos Santos] levou 30 anos até começarem a fazer dele ‘gato sapato’, mas este Presidente, em menos de quatro anos, já está capturado por alguns dos seus principais colaboradores em ações que podem arruinar a sua campanha eleitoral”, afirmou ao Expresso um destacado membro da bancada parlamentar do MPLA.

O esquema ­­­— montado com recurso ao famoso “saco azul” da Presidência, que permitia a alguns dos seus altos funcionários levantarem do cofre do Bando Nacional de Angola (BNA, bando central do país) avultadas somas em moeda nacional e divisas — remonta ao tempo da governação de Eduardo dos Santos e leva mais de 20 anos.

Lourenço exonerou toda a equipa de generais e majores afeta à Casa de Segurança da Presidência e mandou instaurar um processo-crime aos suspeitos de crimes de peculato, retenção de dinheiro e associação criminosa, mas fonte dos Serviços de Investigação Criminal disse ao Expresso existirem “fortes indícios de que o chefe máximo da instituição soube do esquema e ter-lhe-á dado continuidade”. O jurista Filipe Ambrósio considera, por isso, que “o general Pedro Sebastião, enquanto responsável político da área, deixou de ter condições para continuar no cargo e, se não apresentar a demissão, deve ser imediatamente demitido pelo Presidente”.

Se a corrupção tira o sono a Lourenço, a morte de milhares de pessoas, vítimas do surto da malária e de doenças diarreicas, agravadas pela galopante espiral de desemprego e de empobrecimento da população, lança desespero entre aqueles que depositavam esperanças na sua governação. Passados quatro anos e em sentido oposto, multiplicam-se os angolanos que veem esfumar-se expectativas de mudança de paradigma governativo.

Democracia com oposição silenciada?

A adensar este desvario, a estratégia de diabolização do líder da UNITA, assente no recrutamento mercantilista de “bocas de aluguer” atribuída a círculos radicais do MPLA, começa a criar um clima de desconforto no seio da classe média e meios intelectuais deste partido. “Falta discernimento político e estratégico e, quando um partido com a dimensão do MPLA se socorre de lumpenocratas para atacar um adversário, é o fim da picada”, sublinha o professor universitário Filomeno Dias.

Círculos mais arejados do MPLA discordam, por isso, de expedientes de baixo coturno para pôr em xeque a imagem de Adalberto da Costa Júnior. A forma como a figura de Eduardo dos Santos tem sido associada a um pretenso apadrinhamento do líder do maior partido da oposição merecer a repulsa da própria UNITA.

O médico Maurílio Luiele, deputado deste partido, acusa Lourenço de ser cúmplice de “ofensa moral grave” ao antigo Presidente, que está “a ultrapassar todos os limites da ética”. Para o consultor político Walter Ferreira, “o MPLA, se quiser proteger a sua representatividade para assegurar a reeleição, tem de parar numa estação de serviço e recauchutar os pneus para ajustar as suas dinâmicas aos desafios que se aproximam”.

Ao passar a bola para o Tribunal Constitucional para avaliar a legitimidade da candidatura de Costa Júnior, o MPLA encosta a corda ao pescoço do juiz Manuel Aragão, o mesmo que deu como transparente e legal todo o processo conducente à eleição daquele político como líder da UNITA. Não podendo dar o dito pelo não dito, para o jornalista Reginaldo Silva, “o juiz Aragão é agora a torre do tabuleiro de Lourenço”.

A campanha que alguns círculos do MPLA empreendem contra Costa Júnior está a funcionar como estímulo ao fortalecimento da coesão e unidade interna da UNITA, ao mesmo tempo que acentua o divórcio com figuras da sociedade civil e capitaliza simpatias em meios políticos descontentes com a governação do MPLA. 

EXPRESSO