• Post category:Novo Jornal

“O governo tem de ser o nosso servidor e dar-nos a possibilidade de crescermos livremente” – Paulo Flores

“O governo tem de ser o nosso servidor e dar-nos a possibilidade de crescermos livremente” – Paulo Flores

Músico, compositor e intérprete, Paulo Flores, que recentemente apresentou o seu novo álbum, intitulado Independência, fala, ao longo da conversa com o Novo Jornal, da Angola que sonha para todos os angolanos, dos seus traumas e alegrias e desvenda as metáforas por trás das suas composições. A celebrar 33 anos de carreira e a viver no estrangeiro há cinco anos, o autor de Kapuete Kamundanda diz que, espiritualmente, nunca saiu de Angola e que encara com optimismo o futuro do país, Contudo, sugere que o Executivo não demore muito para garantir as liberdades, prioriza a juventude e as causas sociais, com destaque pra a educação e a saúde.

A música Njila la Dikanga, um dueto com Yuri da Cunha, venceu a edição 2021 do “Top dos Mais Queridos” em Luanda. Como foi receber essa notícia?

Vi várias notícias de que Paulo Flores venceu o “Top dos Mais Queridos”, mas, no fundo, não é só Paulo Flores, mas, sim, Paulo Flores e Yuri da Cunha. A música é nossa. Ganhar na província de Luanda com Njila la Dikanga deixa-me bastante orgulhoso, pelo tema que é e pelo que ele representa. No fundo, é um pouco aquilo que tenho dito: “ninguém desiste ainda”, porque nos encontramos e nos reencontramos, até nos momentos mais difíceis que essa música também retrata, mas que também celebra e, aí, também encontramos esse sentido de Pátria. Espero que, na votação nacional, haja também esse abraço ao Njila la Dikanga e ao que ele significa, porque é uma música plural, porque é nós todos. É um momento de partilha, de ancestralidade, e fico muito feliz por saber que a música toca tantos aos angolanos, como tocou a mim e ao Yuri. Agradeço a todos os fãs e ao Yuri, pelos sentimentos, pela partilha, por todo o amor e respeito reciproco.

Njila la Dikanga é uma composição com cheiro de saudades e um canto à procedência. Como surgiu a ideia da música?

É uma homenagem às nossas avós, à lembrança da nossa essência, é uma procura e um regresso às origens e ao nosso interior, enquanto seres humanos. É uma canção que significa também Pátria. Na cadência, na delência e na rítmica do Njila la Dikanga, encontrámos a dor que se transforma várias vezes em celebração. É também o caminho distante. As nossas avós sempre quiseram morrer no lugar delas e, às vezes, estar fora do lugar confunde-se até com o território físico, mas, muitas vezes, é algo emocional, porque, às vezes, dentro do país nos sentimos fora e, tantas vezes, é fora que continuamos a sofrer por dentro. Então, Njila la Dikanga representa esse abraço entre todas as Angola, todas as terras e todos os lugares para onde não conseguimos voltar para morrer e é, também, um abraço entre toda a diáspora e todo o sentimento de Angola no mundo inteiro.

Recentemente, realizou o show de apresentação do seu novo álbum, o independência, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Que balanço faz do evento?

O show no Coliseu foi emocionante. Primeiro, ao fazer o roteiro, já foi uma viagem por si só. O disco Independência, mais do que a nossa independência colectiva, é também a minha independência emocional. O show acabou por viajar pela história da minha vida, pelos primeiros sucessos, pelo Kupuete Kamundanda, que foi a primeira música que fiz, na altura só sabia duas notas. E é incrível como nesta primeira música eu já disse tudo que disse nos 33 anos a seguir. O espectáculo serviu para recordar músicas com “Inocenti”, Reencontro, Coisas da Terra, e, depois, cantar com o Manecas os dois clássicos da música africana Si bu Sta dianti na luta e Xica Feia e com o meu filho o Ainda o país que nasceu meu pai, cantar o Njila la Dikanga, com o Yuri, o Nzambi com o Prodígio e o Amanhã, com os dois. Foi uma partilha incrível. Saímos do Coliseu com as almas lavadas. Foi mágico e marcante.