• Post category:Mercado

Economia afundou 4% no primeiro trimestre, pior arranque dos últimos seis anos

Economia afundou 4% no primeiro trimestre, pior arranque dos últimos seis anos

A economia angolana afundou 4% no primeiro trimestre de 2021, o pior arranque desde 2015, revelou quinta-feira da semana passada o Ministro da Economia e Planeamento, Sérgio Santos, citando estimativas das Contas Nacionais Trimestrais do I trimestre de 2021 do Instituto Nacional de Estatística (INE).

“Estamos ainda em fase de elaboração das Contas Nacionais, mas as estimativas para o primeiro trimestre apontam para o facto de a nossa economia, de uma maneira geral, ainda continuar em recessão. Terá havido uma recessão de 4% da actividade económica geral”, afirmou Sérgio Santos a jornalistas no final da quinta sessão ordinária da Comissão Económica do Conselho de Ministros, que apreciou o relatório de balanço de execução do Plano de Desenvolvimento Nacional do primeiro trimestre.

O afundanço geral de 4% é o resultado da queda de 18% da produção petrolífera, devido às restrições da COVID-19 e ao esgotamento dos poços em actividade, a qual não foi compensada pelo crescimento do sector não petrolífero que não excedeu 1%.

“Nós podemos dizer sem medo de errar que o sector não petrolífero vai continuar a crescer como já o fez no primeiro trimestre. Estamos a assistir o dinamismo do sector mesmo com COVID-19. A própria despesa pública, com o programa de intervenção nos municípios, está a dinamizar muitas localidades e se continuarmos com o ritmo de execução que está previsto no OGE, esses efeitos vão ser cada vez maiores na economia”, garantiu.

Quanto ao sector petrolífero, “que sofre os efeitos da pandemia, o que está previsto nos próximos trimestres é que a produção recupere e chegue a 1,2 milhões barris/dia. Até Março estava em 1,132 milhões barris/dia”, adiantou.

Sérgio Santos afirmou que o Executivo está na expectativa de o País sair da recessão económica este ano e passar para um período de estagnação. “Se a produção de petróleo recuperar, aliada ao facto de o preço do petróleo também estar a aumentar, nós poderemos perfeitamente chegar à estagnação ou até mesmo ao crescimento”, previu.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) ainda não divulgou os dados das Contas Nacionais Trimestrais (CNT) referentes ao primeiro trimestre deste ano. O calendário da instituição aponta que as contas do primeiro trimestre devem ser publicadas no dia 15 de Julho do mesmo ano.

O economista António Estote nota que o BNA também ainda não publicou os dados estatísticos do primeiro trimestre de 2021, o que considera ser uma acção concertada no âmbito do Conselho Nacional de Estatística.

“Este facto indicia que os dados reais devem ser assustadores. É expectável que o desempenho da economia no 1.º Trimestre de 2021 tenha mantido a sua tendência negativa’’, reforçou acrescentando que a praga de gafanhotos que assolou o sul de Angola deve ter reduzido a produção agrícola.

O que indicam as previsões para 2021

Enquanto o Governo espera uma estagnação da economia este ano, as instituições multilaterais são mais optimistas com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) com uma previsão de crescimento de 3,1%. Seguem-se o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional com 0,9% e 0,4%, respectivamente.

Recentemente os oito economistas angolanos regularmente consultados pela Bloomberg melhoraram a previsão de crescimento de Angola em 2021 para 1,7%, o que representa uma melhoria face aos 1,3% anteriormente previstos.

No que respeita às agências de notação financeira, a Fitch Solutions está alinhada com os inquiridos pela Bloomberg, apontando também para um aumento do PIB de 1,7%. “Esperamos um aumento nas exportações petrolíferas, que vão tirar Angola da recessão de cinco anos em 2021, contribuindo para um crescimento moderado do PIB”, justificam os especialistas da Ficth. A previsão da Standard & Poor´s não ultrapassa os 0,3%, enquanto a da Moody’s chega aos 2,5%.

Entre os bancos, o sul-africano Standard Bank perspectiva uma expansão da economia de 0,7%, muito mais pessimista do que a do angolano BFA que antecipa um crescimento 3%. O cenário macro-económico do Governo aponta para um recuo de 6,2% da economia petrolífera em 2021, enquanto o BFA antecipa um decréscimo ligeiramente menos acentuado de 5,3%. “Em sentido contrário, do lado da economia não-petrolífera, o governo prevê um crescimento de 2,1%; a nossa premissa é mais optimista, prevendo uma expansão de 6,8%”, justificam os técnicos do BFA.

Economista alerta para “manipulação de dados” do INE

“Do ponto de vista ético não fica bem o ministro da Economia e Planeamento tecer qualquer comentário sobre informação ainda não divulgada pelo INE, um organismo sob sua tutela”, critica o economista António Estote referindo-se ao facto de Sérgio Santos ter revelado dados do INE ainda em elaboração.

“Em última instância, o ministro pode falar sobre o desempenho da actividade económica nacional, na qualidade de Presidente do Conselho Nacional de Estatístico, órgão que coordena o Sistema Estatístico Nacional. Foi nessa qualidade que o ministro teve acesso privilegiado às contas nacionais do 1.º Trimestre de 2021 em elaboração pelo INE, mas ainda não publicadas”, admitiu.

António Estote acredita que o INE tem sofrido muita interferência política de forma a fazer coincidir os dados estatísticos com o discurso político.

“É fundamental não perder de vista que os dados estatísticos só são úteis quando conseguem captar de forma fiel a realidade objectiva que se pretende medir. Quando os dados estatísticos são manipulados perdem a sua serventia e induzem a tomada de decisões erradas e desprovidas de qualquer realismo”, alertou.

“Tal como tem acontecido com o Índice de Preços no consumidor apresentado pelo INE quando comparado com o aumento do nível de preços verificado nos mercados, feiras e supermercados”, comparou. Há fortes indícios de manipulação de dados pelo INE, reafirma o também pesquisador do Centro de Estudos da Universidade Lusíada de Angola (CINVESTEC).

“Não se percebe como é que em Outubro de 2019, quando o governo introduziu o IVA e o BNA adoptou o regime de câmbios flexíveis, o INE apresentou uma inflação mensal de 1,38% o valor mais no período entre Junho de 2019 e Janeiro de 2021”, exemplificou. De acordo com relatórios do CEULA, em Outubro de 2019, e os preços subiram mais 70% nos mercados, feiras e supermercados”, garantiu.

Consciência ou não, o inquérito ao emprego que deveria ter sido publicado na terceira semana de Maio pelo INE ainda não viu a luz do dia. Atraso contribui para a avolumar as suspeitas sobre se a instituição não está a manipular os números para agradar ao Governo.