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Dívida pública representa 41% do activo dos maiores bancos

Dívida pública representa 41% do activo dos maiores bancos

A carteira (agregada) de títulos e valores mobiliários dos quatros maiores bancos do sistema aumentou 12% no primeiro trimestre de 2021, face ao período homólogo, passando de 3,6 biliões de Kwanzas para 4 biliões Kz, segundo cálculos do Mercado com base na informação financeira disponibilizada pelos ‘Big Four’ (BAI, BFA, BIC e ATL).

O investimento dos ‘Big Four’ em títulos da dívida pública (4 biliões Kz), no primeiro trimestre de 2021, representou 41% do activo (agregado), perto de 9,8 biliões Kz, facto que demonstra a apetência dos bancos de grande dimensão em emprestar dinheiro ao Estado, do que à economia, apesar das consequências deste negócio.

No exercício económico passado (2020), os bancos com maior exposição à dívida pública (BFA, BAI e BIC) foram obrigados a registar imparidades nos respectivos balanços, porque as principais agências de notação de risco financeiro reviram em baixa a dívida soberana de Angola. Ainda assim, a banca mantém o interesse neste produto, considerado rentável e seguro para o investidor.

O investimento em títulos da dívida pública, segundo Daniel Sapateiro (economista), implica menos apetência da banca em conceder crédito a particulares e às empresas; menor capacidade em termos de liquidez para financiamento; incapacidade dos jovens empreendedores e empresas de terem financiamento para investir e de apoio à liquidez momentânea.

Para Alves da Rocha, se a dívida pública é o melhor competidor no mercado pela obtenção de dinheiro dos bancos é aí onde se deve apostar.

“Este fenómeno de evicção é conhecido e estudado pela Teoria Económica, restando ao Estado/Governo fazer o que deve (e bem feito) para aumentar a quantidade de dinheiro a disponibilizar para o sector privado produtivo.

O também director do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola (UCAN) considera anacrónico impor aos bancos o que devem fazer com o dinheiro dos clientes e depositantes.

“É de acordo com a capacidade de gerar retornos, que se querem máximos, que os bancos investem. Conceder um empréstimo corresponde a um investimento do Banco na entidade (individual ou colectiva) tomadora do dinheiro”, disse Alves da Rocha.

Continuando, disse que a concessão de crédito obedece a regras precisas de rigor, aderência e rendibilidade.

Como qualquer investimento, a dívida pública também envolve riscos, principalmente quando a dívida soberana é revista em baixa. Em virtude disso, explica Daniel Sapateiro, os bancos ficam propensos a registar custos que poderão diminuir os lucros antes dos impostos ou gerar prejuízos. “De forma indirecta, há menos impostos e restruturação dos bancos”.

Em relação à matéria acima (risco), Alves da Rocha advoga que o Estado é uma pessoa colectiva de bem, merecedora de confiança, mas muitas vezes esta segurança é abalada por considerações menos abonatórias proferidas pelas agências de risco.

Quando assim acontece, “a desconfiança se instala e tratando-se de economias no mais puro estilo de mercado, os bancos deixam de emprestar”, disse o docente universitário, para mais adiante afirmar que em Angola as interferências políticas são muitas, levando os bancos a recearem pela sobrevivência se não emprestarem ao Estado.

O Banco de Fomento Angola (BFA) foi o maior investidor da dívida pública, no primeiro trimestre de 2021, com uma carteira avaliada em 1,4 biliões Kz. Tem um peso de 33,6% no agregado dos ‘Big Four’.

A participação do BAI (maior banco em activo) no agregado é de 30,6%, equivalente a 1,2 biliões Kz.

Pelo montante das carteiras, BFA e BAI são os principais parceiros do Estado, relativamente à dívida pública interna.

BIC e Banco Millennium Atlântico (ATL) estão nas posições subsequentes, 21,1% (849 mil milhões Kz) e 14,7% (591,8 mil milhões Kz) respectivamente.