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As razões do regresso de José Eduardo dos Santos a Angola

As razões do regresso de José Eduardo dos Santos a Angola

O antigo Presidente angolano José Eduardo dos Santos regressou ao país no passado dia 14, num momento em que o filho José Filomeno dos Santos aguarda o julgamento pelo Tribunal Superior do recurso contra a pena de prisão de cinco anos que pesa sobre ele e a três meses do congresso do MPLA, que deve reconduzir João Lourenço no comando do partido no poder.

Como pano de fundo há ainda os muitos processos em curso na justiça angolana e no exterior contra a filha Isabel dos Santos e o facto de o MPLA ter suspenso o mandato da filha e deputada Welwitschia “Tchizé” dos Santos.

Para o jornalista, historiador e analista político Jonuel Gonçalves, também conhecido por José Gonçalves, o antigo Presidente tem muitos motivos para regressar a Angola, a começar por não querer transmitir a ideia de que fugiu.

“Ele revelou a amigos próximos que ele não queria dar a impressão de que era um Presidente fugitivo”, afirma Gonçalves, lembrando, na conversa com a VOA, que Santos tem alguns problemas por resolver em Angola.

“Um colega sublinhava no outro dia que ele não saiu de Angola enquanto o seu filho esteve preso. O caso do filho vai a julgamento no Supremo e a sua presença pode ajudar bastante, ou ele pessoalmente pode sentir-se mais à vontade junto do filho num momento decisivo”, aponta aquele analista quem acrescenta um segundo motivo para este regresso.

Além de marcar a presença em Angola e marcar presença junto dos sectores da família mais ameaçados, Jonuel Gonçalves admite que “ele pode estar também a abrir caminho para uma solução deste problema dos capitais que estão no exterior porque se a família Santos chegar a um acordo nesta matéria, todos os outros vão ter de chegar a um acordo”.

Imagem do Governo e debate interno sem ameaças

“Do lado do Governo, João Lourenço não pode dar a impressão de que está a espezinhar, a sacudir e a tentar humilhar um ex-Presidente, independente das suspeitas que pairam sobre ele, ou seja, um comportamento institucional, vamos dizer, civilizado, e isto é importante para o MPLA”, acentua aquele analista político angolano.

É que, para Jonuel Gonçalves, o partido no poder passa por uma fase de debate interno, “talvez, em toda a história, o primeiro debate interno que não dá lugar a ameaças repressivas, com alguns participantes desse debate a se expressarem nos órgãos de comunicação e nas redes sociais”.

Quanto a uma eventual influência de José Eduardo dos Santos na política, o historiador considera que “ninguém sabe porque ninguém sabe quem terá a grande influência ou não”, em Angola neste momento.

Gonçalves prefere olhar para o campo político-partidário e realçar que “o Presidente de Angola é talvez um dos casos em que a gente pode dizer que vai ter influência e do, outro lado, poderá ter influência a oposição, mas resta saber se ela vai se articular ou não”.

José Eduardo dos Santos é conhecido por ser um “grande gestor de silêncios”, com os quais, dizem os observadores, transmite muitas mensagens.

Ele não anunciou o regresso a Angola, nem se pronunciou desde que chegou a Luanda.

Desconhece-se também quanto tempo poderá ficar no país, nem se participará no oitavo congresso do MPLA, de 9 a 11 de Dezembro, que vai reconduzir João Lourenço na liderança do partido.

Mais liberdade em Angola

Jonuel Gonçalves não está inclinado a pensar que Santos irá, por exemplo, activar os seus próximos para fazer frente a Lourenço e que não estão contentes com a gestão do actual Presidente.

“Talvez entre a velha guarda, mas nas novas tendências, na área económica, financeira e até na área cultural, José Eduardo não tem assim muito prestigio”, lembra aquele analista quem alerta que o país vive outro ambiente.

“Um facto muito importante é que depois dele sair a liberdade de expressão aumentou muito e este elemento é considerado tão ou mais importante que o combate à corrupção que agora está apenas nas mãos do poder judicial”, aponta Gonçalves que não vê Santos “a ter assim muito peso”.

Entretanto, a presença dele tem um valor simbólico de que “pelo menos neste momento em Angola o debate político não se faz com perseguições, e isto é muito importante”.

“As acusações que eram feitas contra os adversários de José Eduardo dos Santos condenavam-os ao silêncio, a terem de sair do país ou ficavam numa situação de ostracismo. E o Governo actual não quer dar essa imagem”, conclui o historiador e analista político.

Na quinta-feira, 16, a Presidência da República informou que João Lourenço e José Eduardo dos Santos falaram ao telefone, sem avançar detalhes, mas que apenas “se saudaram mutuamente”.